Jung e os Contos de Fadas

Carl G. Jung, trabalhou na descodificação dos contos infantis para melhor diagnosticar e entender as doenças psicológicas, acreditando que os contos de fadas representavam as etapas do processo de individuação: a realização, pelo ego, das potencialidades de si mesmo.

Segundo ele, os contos de fadas nada mais seriam do que a versão contemporânea da transmutação alquímica, em que a matéria bruta seria transformada em algo de maior valor.

Essas narrativas, assim como os mitos e rituais iniciáticos, são para Jung (1964) os tesouros da humanidade utilizados para atravessar momentos de crise. São experiências iniciáticas disfarçadas, a fim de poderem escapar da censura de uma época antimítica. São as expressões mais transparentes dos arquétipos do inconsciente coletivo.

De acordo com o teórico, o inconsciente coletivo seria um reservatório de imagens latentes, em geral chamadas de imagens primordiais. O homem herdaria essas imagens do passado ancestral, passado esse que inclui todos os antecedentes humanos, bem como os antecedentes pré-humanos ou animais. Essas imagens nada mais seriam que predisposições, no lidar e no responder ao mundo tal como os antepassados.

Em suas reflexões, Jung procurou mostrar o quanto é necessário para um psicanalista um conhecimento sólido e profundo da questão dos arquétipos e da mitologia, para poder compreender e utilizar os contos de fadas e sua simbologia universal enquanto material clínico.

Para vários estudiosos da psicologia analítica, cada conto de fadas representa um drama no qual os personagens arquetípicos — que povoam o inconsciente — movimentam o psiquismo, estabelecendo a ponte entre o consciente e o inconsciente, obtendo, a partir desse momento, efeitos catárticos e projetivos. Assim, a bruxa seria uma das várias manifestações do aspecto negativo do arquétipo mãe. Em João e Maria, por exemplo, ela parece ser o símbolo da mãe dominadora que controla e prende seus filhos no nível obscuro da imaturidade, usando, por sua vez, docinhos como armadilha. Já em o Pequeno Polegar, sete irmãos são expulsos da casa paterna porque os pais não têm como alimentá-los e vão parar na casa de um ogro faminto. Para Jung, uma espécie de pai devorador.

O trabalho de Marie Louise Von Franz (1979), colaboradora de Jung, sobre a utilização dos contos de fadas na clínica é amplo e profundo. Ela acredita que o simbolismo encontrado nos contos de fadas, chamados por ela de textos alquímicos, não poderia ficar isolado de pesquisas referentes a outras modalidades do inconsciente–sonhos. Mitos e lendas. Ela
compara a procura do sentido dos contos de fadas à tentativa de alcançar, seguindo-lhe as pegadas, um cervo fugitivo particularmente ágil.

Contos de fadas são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Conseqüentemente, o valor deles para a investigação científica do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material. Eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa. Os camponeses suíços experienciam-nos constantemente, e eles formam a base das crenças folclóricas. Quando alguma coisa acontece, ela é cochichada e corre, como correm os boatos; então, sob condições favoráveis, o fato emerge enriquecido de representações arquetípicas já existentes e, progressivamente, transforma-se num conto (Von Franz, 1990:29, 30).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *