Receitas de Esperança

Uma história sobre os refugiados…

Aquela imagem que todos nós vimos de uma criança morta nas praias da Turquia, foi o ínicio de um processo doloroso, ainda sem fim à vista.
  Perante a situação de intolerância que o mundo continua a viver face à situação dos refugiados, perante a desumanidade com que muitos governos europeus  estão a lidar com estas pessoas, que apenas querem ter um local para viver em paz e em segurança. Perante a indiferença de muitos e os gritos de raiva dos outros…

Deixo-vos aqui uma história simples , mas vinda do coração.

       Receitas de Esperança

A sorte da Marta era ter em casa um gato amarelo às riscas pretas, que era um verdadeiro génio. Sim!.. Pois no dia em que o coração da Marta se partiu em mil pedacinhos, se não fosse o gato Bartolomeu,nem sei o que poderia ter acontecido!

Marta não imaginava que os corações, se podiam partir em mil pedacinhos. Mas naquele dia, ela ouviu Crash, Crash no sítio onde mora o coração, ali mesmo no centro do peito.

Marta estava ansiosa para chegar a casa. Quando entrou, percebeu que a mãe não estava, pois o seu cheirinho doce não se sentia no ar. Decidiu, por isso, ir ter com o seu gato Bartolomeu, que lambia as suas riscas pretas e amarelas preguiçosamente.

̶ Bartolomeu, Bartolomeu, acho que parti o coração em mil pedacinhos!

 ̶  Calma! Marta, não terá sido só em dois ou três?

– Não gatinho! Eu sinto os mil pedacinhos por todo o corpo- disse ela aflita.

Por momentos, calaram-se e olharam um para o outro, com os olhos arregalados.

̶  Miauuuuu, Miauuuuuu! Já sei vamos buscar a fita-cola, e com muito cuidado, colamos pedacinho a pedacinho- disse o Bartolomeu vaidoso.

– És mesmo totó, achas que isso é possível? Meu deus …que ideia tão disparatada, estes gatos às riscas são sempre assim!

Voltaram, os dois a olhar um para o outro, até que Marta arregalou os olhos, coçou o cocuruto da cabeça e exclamou:

̶  Vamos ao médico dos corações, de certeza que ele tem um remédio ideal!

Lá foram a menina e o gato para o médico dos corações. Um médico grande e simpático levou Marta para o gabinete. Ele e a enfermeira fizeram-lhe exames, auscultaram-na, apalparam-lhe a barriga e até lhe fizeram um raio X. Depois, de tudo feito, o médico com aquele ar de sabedoria que todos os médicos têm, perguntou:

̶  A menina teve algum choque recentemente?

̶  Choque? Como?- gaguejou a Marta surpreendida.

̶  Houve alguma situação que a tenha assustado ou enchido de tristeza?

– Bem, no dia em que parti o coração, tinha chegado à escola uma menina refugiada chamada Nhora. Nhora tinha uns olhos pretos e doces, era pequenina, tinha uns cabelos escuros, assim como a sua pele. Não falava português e por isso a professora tinha-nos ensinado a jogar à mimica com ela. Como eu tinha um lugar vago na minha carteira, Nhora sentou-se ao meu lado. Eu não lhe sorri, não lhe dei a mão e ainda fiquei a olhar especada para ela de olhos arregalados. Na minha cabeça, passavam imagens.

Nhora tinha vivido no meio da guerra, tinha ouvido tiros, rajadas de metralhadoras, visto tanques a avançar, como touros enraivecidos, soldados cheios de ódio a matar, e destruição e mais destruição, mas o olhar dela era tão doce como um bolo de chocolate!

Nhora atravessou o mar de esperança num minúsculo barco de borracha, onde as pessoas iam como sardinhas em lata, com o coração na boca, cheios de medo, frio, com fome e com a garganta seca e ávida de água doce com sabor a paz e a liberdade, mas o seu sorriso era maior do que o mundo inteiro!

Nhora teve de deixar o seu país, a sua cidade, a sua casa, a sua escola, os seus amigos, o seu ninho e porto de abrigo, teve de rumar ao desconhecido para sobreviver, para ter direito à vida, mas foram tantos os muros que se ergueram, foram tantas as vozes que gritavam, “Terroristas, vão para o vosso país!” Ah! Mas quando as suas mãos tocaram nas minhas pareciam quentes e fortes como o sol do verão.

– Marta, Marta é assim que acolhes a nossa nova aluna?-disse a professora zangada e chateada.

Eu não estava a conseguir reagir, estava assustada, confusa, atordoada, quase virada do avesso. Nesse instante, vi Nhora a baixar a cabeça e a limpar as lágrimas. Foi então que ouvi o barulho…Crash, Crash! Crash!

 ̶ Hummm- disse o médicotenho aqui a receita ideal, garanto-lhe que se cumprir o que lhe peço, ficará com o seu coração inteirinho num instante!

A Marta e o gato Bartolomeu pagaram a consulta e encaminharam – se para a farmácia do Senhor Mendes. O senhor Mendes leu a receita, voltou a ler e, com um sorriso nos seus lábios fininhos, exclamou:

– Menina Marta, os seus remédios não se compram na farmácia … Penso que será melhor ler a receita com muita atenção!

O gato Bartolomeu, que era muito bom na leitura, leu alto:

Receita de Esperança

Para a menina Marta

Abraçar a Nhora, dar-lhe a mão, rasgar-lhe o maior sorriso do mundo e com a mímica que a professora ensinou, desenhem com o dedo um enorme coração. Encham-no de palavras bonitas e carinhosas. As duas juntas, e de mãos bem apertadinhas, soprem com toda a força o coração até o céu do mundo.  Fica a esperança que o amor tudo possa mudar.

A Marta cumpriu a receita, à risca e ela até sentiu o momento em que o coração voltou a ficar inteiro num istante, pois coicidiu com um enorme beijinho que Nhora lhe deu na bochecha.

Vanda Marques

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