Quando a noite deu lugar ao dia


Era uma vez reino muito, muito distante, onde tinha acontecido algo de muito, muito preocupante, de insólito, mesmo inaudito …
O sol já não nascia há uma semana, a noite varria o reino sem dar tréguas. De início, os súbditos acharam maravilhoso, não iam trabalhar, ficavam a dormir até ao meio- dia, quer dizer até à primeira meia-noite, podiam contemplar as estrelas várias horas de seguida a até sentir o silêncio vindo do universo.
Andavam enfeitiçados pela noite e pelas várias fases da lua. As crianças não iam a escola, até os galos puderam meter férias. Mas ao fim de uns dias, a coisa começou a cansar. Chegou -se ao ponto de ter que arranjar uma solução. O rei reuniu com os ministros, com os nobres, com os conselheiros, com os sábios, mas a coisa estava difícil, depois de muitas conversas , acharam que talvez a culpa, fosse do Alquimista lá do Reino ele andava sempre a meter-se em sarilhos .
Sim! Uma vez um fumo verde saído das suas experiências encheu o reino de umas bolhas horríveis e pegajosas. Uma outra, fez uma experiência química tão estrondosa que rebentou com as redondezas.
Toda esta gente iluminada foi até casa do Alquimista, e bateram à porta :
– Truz, Truz , Truz , Alquimista abre essa porta que nós queremos entrar !
O Alquimista ao ouvir esta barulheira levantou-se meio baralhado com o alvoroço.
– O que poso fazer por vós meus Senhores? – disse ele de boca aberta ao ver toda aquela gente à sua porta .
– Ouve cá, o que tu andaste a fazer para a noite, continuar noite e não haver dia ?
O alquimista de olhos arregalados ficou sem saber o que dizer, também ele andava a à procura de resposta nos livros e livros e livros que tinha em casa, mas não havia sinal de nada, nadinha! .
– Eu gostava muito de vos poder ajudar, mas também não sei o que se passa, já olhei com a minha luneta para o céu e não vejo nada de estranho, já percorri a minha biblioteca e não há memória de um caso destes- disse o Alquimista com uma ruga na testa de preocupação.
– De certeza que não fizeste nenhuma experiência estranha? a situação esta a ficar fora de controlo, precisamos do sol, do dia, da luz- disseram os iluminados aflitos.
Nessa noite, pois não havia dias! uma menina com os olhos tristes abriu a janela e decidiu falar com a noite, talvez ela a ouvisse .
– Noite, noite tu és muito bonita e maravilhosa, adoramos as tuas estrelas, o teu breu, a tua poeira, sinto muito se nem sempre te agradecemos a tua e beleza e tua imensidão. Agradecemos muito esse céu estrelado que nos permites contemplar e perdoa-nos por não te termos ouvido quando nos chamaste em aflição.
A noite ficou emocionada, correram-lhe lágrimas grossas dos seus grandes olhos estrelados , envolveu-se no seu manto e estendeu- se até à menina.
De mansinho, com uma grande ternura abriu os seus enormes olhos embaciados e falou com a menina:
Menina, menina, tocaste-me no coração, foste a única que me acarinhou a alma, mas eu tenho tanto medo de adormecer , e se depois vocês não me querem mais! Ouvi dizer que preferem o dia, a luz, o quente do sol – disse a noite cabisbaixa.
– Querida noite, onde ouviste tamanho disparate? nós gostamos tanto de ti, mas tanto! Mas também precisamos do dia, o universo precisa dos dois para viver. O dia e a noite completam-se como a luz e a sombra .
A noite ficou pensativa, mas viu nos olhos da menina que ela falava a verdade, acreditou mais nela, do que nas vozes que a tinham rejeitado.
– Obrigada menina, vou confiar em ti e acreditar em mim! Hoje vou permitir-me adormecer e deixar-me embalar pelos sonhos.
Assim foi, nessa noite, a noite adormeceu e sonhou em paz e com o coração cheio de amor. E a noite deu lugar ao dia e assim foi para todo o sempre.
Vanda

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