Piquinhas – O ouriço que queria ter caracóis ondulantes

A bicharada estava toda numa grande risada, o Piquinhas- ouriço caixeiro dizia em alto e bom som que ia fazer uma permanente. Estava farto dos seus picos, picantes queria ter uns caracóis fofos e ondulantes. O Piquinhas era um ouriço risonho e bem-disposto, mas ultimamente estava triste e ainda se sentia mais picante. Queria ter um pelo fofo como o Tobias, o seu amigo coelho, ou então uma pelagem elegante, como a Júlia raposa.

A bicharada só parou a risada, quando viram uma lágrima a rolar pela cara do Piquinhas e o seu corpo a enrolar-se numa bolinha.

– Piquinhas! O que se passa, porque estás triste com os teus picos? – disseram os gémeos esquilos em coro.

– Para vocês é tudo bem mais fácil, eu não posso levar um abraço abracadinho , os meus picos afastam  quem se chega ao pé de mim- disse o piquinhas de olhos baixos.

– Piquinhas, desculpa nunca me ter apercebido disso, olha! mas lembras-te quando nós precisámos de dois dos teus picos para tirar uma lasca das asas da Coruja Rabuja? Foste o herói do bosque e nós temos orgulho em ti- disse o Veado Rosado muito animado.

Nada parecia animar o Piquinhas, e ele garantiu que no dia seguinte iria ao cabeleireiro da Dona Lebre e que no lugar dos picos, nasceriam caracóis.

 

No dia seguinte, a bicharada fazia fila na porta da Dona lebre para ver o Piquinhas sair com caracóis. A transformação durou, durou, ouviram-se barulhos estranhos, uma estranha fumarada e no final de tudo, uma enormmmme gargalhada.

A Dona lebre abriu a porta e a bicharada abriu a boca de espanto… O Piquinhas, não parecia o Piquinhas, parecia uma ovelha acastanhada. Ninguém teve coragem de rir ou de dizer alguma palavra, continuavam de boca aberta e de barriga apertada.

O Piquinhas vinha eufórico, esticou os seus bracitos e pediu:

– Venham cá dar-me um abraço abracadinho, quero sentir o que é receber um abraço apertadinho.

A bicharada abraçou-o como se o envolvesse com uma mantinha de nuvens e o Piquinhas chorou de alegria.

Durante uns tempos, não resistiu a pedir abraços, abraços a todos os animais que passavam. Depois, depois começou a sentir falta …imaginem só! dos picos, picantes.

Já ninguém o respeitava, antes bastava eriçar-se para afastar as más companhias, quando aqueles fala baratos não se calavam ele enrolava.se numa bolinha e ninguém o chateava.

Mas o pior mesmo, foi quando chegou a época de acartar as maças para o armazém do bosque e como as mãos dos bichos eram pequenas, era Piquinhas , que as acartava nos seus picos. Agora como o faria? Não tardava vinha o inverno.

Piquinhas foi até casa da lebre cabeleireira e com alguma vergonha perguntou:

– Dona Lebre, posso voltar a ter picos, no lugar dos caracóis ondulantes?

– Estava mesmo à espera desse dia, guardei os teus picos um a um e fiz um casaco ao teu tamanho e forma, e assim que o vestires voltas a ser o Piquinhas caixeiro, que nós tanto gostamos.

O Piquinhas vestiu o casaco e saiu sorridente, deu corda aos seus pezitos e foi até junto da macieira e acartou, acartou maças até ser noite. Ao entrar em casa para descansar tinha a bicharada a preparar um fumegante jantar e um enorme abraço para lhe dar, pode não ter sido tão apertado, como quando tinha os caracóis ondulantes, mas foi cheio de ternura e agradecimento.

O Piquinhas passou a ser muito vaidoso dos seus picos picantes e naquele bosque nunca mais nada foi como antes…Quando alguém reclamava do seu aspeto, contava-se a história do Piquinhas picante que queria ter caracóis ondulantes.

 

Vanda Furtado Marques

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *