Os corações estão no ar

Naquela cidade, todos se interrogavam.Qual a razão da chaminé do chapeleiro soltar corações, em vez de fumo?

Era muito mais giro, original e acima de tudo, único! Como ele faria tal coisa? Pensava o Exmo Sr. Presidente daquela cidade.

Decidiu ir até à casa do chapeleiro, proibir tal coisa, ou então descobrir a receita para fazer os corações .

Vamos ouvir a conversa para perceber como a coisa correu.

“Toc-Toc- Toc- Toc…”

– Quem é? – perguntou o chapeleiro.

– O Exmo. Presidente, preciso urgentemente de falar consigo

O Chapeleiro, só teve tempo de cuspir para as mãos, ajeitar o cabelo, e claro, e evidentemente colocar o chapéu para receber presidentes. Abriu a porta e lançou o seu melhor sorriso.

– Como está Exmo. Presidente da Câmara? Qual o chapéu que deseja que faça?

– Estou bem, mas podia estar melhor, se me explicasse, como é que a minha chaminé pode soltar corações em vez de fumo negro? Se não me explicares, proíbo-te de vender chapéus e morrerás à fome.

O chapeleiro ficou atrapalhado, toda a gente lhe perguntava o mesmo, todos queriam saber o segredo, mas ele também não sabia. Bem, teria de arranjar uma história qualquer, ele tinha uma família para sustentar.

– Oh Exmo. Sr. Presidente é muito fácil, em vez de lenha… – “Ai meu Deus, o que posso inventar?” – Coloco papoilas, muitas papoilas, como elas são vermelhas, o fumo sai em forma de coração.

– Ah! Bem me parecia que tinhas um truque, muito bem, espero não ter que aqui voltar.

Bateu com a porta e pelo caminho já ia gritando, “preciso de papoilas, muitas papoilas, quem, me as trouxer dou uma recompensa monetária.”

Ao fim do dia, a casa do Presidente já estava cheia de papoilas vermelhas e os seus olhos já cresciam de entusiasmo.  Mandou acender a lareira e chamou todos para a rua, para verem o espetáculo do fumo em forma de corações.

O Exmo. Sr. Presidente, já esfregava as mãos de contentamento e ia olhando para a chaminé, mas, nada de corações, apenas um fumo negro, mas mesmo negro.

– Traga-me o Chapeleiro, ou ele me diz a verdade, ou ponho-o nos calabouços- gritava o presidente.

-Toc-Toc- Toc- Toc, abram esta porta, em nome do Presidente.

O Chapeleiro, aflito abriu a porta a medo, ele sabia que a mentira não tinha pegado, e agora?

– O Exmo. Sr. Presidente, quer-te em casa dele, já!

O Chapeleiro só teve tempo de colocar o chapéu de receber presidentes e lá foi, com o rabo entre as pernas. Pelo caminho ia pensando o que ira dizer desta vez… “vermelho, vermelho, humm, cerejas, é isso!”

O Exmo. Sr. Presidente, já o esperava com um ar furioso.

– Ou me dizes como o fazes, ou vais para a prisão, ouviste, seu chapeleiro mentiroso?

– Exmo. Sr. Presidente, desculpe, mas, eu não queria desvendar o segredo, mas pronto, eu digo, o fumo vermelho é das cerejas.

– Das cerejas, comes lá tu cerejas? – disse o Presidente já sem paciência.

– Sim, a minha mulher faz umas tartes de cerejas deliciosas, foi assim que descobrimos o segredo.

-Vou fazer a experiência, se me estiveres a mentir, vou buscar toda a tua família e vai tudo para a prisão.

O chapeleiro foi para casa desanimado e cabisbaixo, e agora o que iria dizer à família?  Assim que entrou em casa a mulher e os filhos rodearam-no e abraçaram-no.

– Pai, pai, não te preocupes, havemos de arranjar uma solução, a mãe acha que descobriu uma forma do Presidente desistir de tal ideia

-Contem lá, sou todo ouvidos.

A esposa e os filhos iam explicando o plano, o chapeleiro ia esboçando um sorriso, o seu coração ia ficando mais calmo e descansado

– Amanhã de manhã convidas o Exmo. Presidente para vir cá jantar e explicamos-lhe tudo- disse a esposa.

E assim foi, o Exmo. Sr. Presidente veio jantar a casa do chapeleiro e da esposa, que fazia as melhores tartes de cereja da cidade.  

– Contem-me lá então o vosso segredo, também quero ter fumo de corações, além de mais eu sou o Presidente e eu é que mando.

– Exmo. Sr. Presidente, para que isso aconteça, tem de ser generoso, tem de partilhar, ser afetuoso com a sua família, não fazer dos outros seus criados, pensar mais nos cidadãos do que em si, e sorrir muito, muito.

O Exmo. Presidente, ouviu aquilo, ficou horrorizado, pasmado, aterrado, varado e disse para a família.

– Obrigada por me terem desvendado o segredo, mas, eu estive a pensar, e já não acho graça nenhuma aos corações, é muito mais elegante e majestoso, o fumo preto a sair da chaminé e, aliás, eu vou mandar dizer, que só a vossa Chaminé poderá soltar corações.

Foi assim, que o Exmo. Sr. Presidente achou que tinha mantido a ordem naquela cidade, mas, se nós olhássemos bem, e via-se melhor durante a noite, já havia chaminés, que timidamente iam soltando uns quantos corações.

Vanda Marques

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