Júlia …o que passa ?

-Júlia, Júlia olha por onde andas, estás sempre a tropeçar! O que se passa?

– Mãeeee é a borboleta que está na ponta do meu nariz! Está a fazer-me cócegas e o flapflap das asinhas está a distrair-me.

A mãe, que já estava farta das histórias da Júlia, nem olhou para o seu narizito, nem sentiu o flapflap das asas da borboleta. O seu coração estava fechado para o encantamento do mundo.

– Pará Júlia, estou farta das tuas histórias, tens é de te comportar. Ajeita o laço que tens no cabelo, compõe o vestido, caminha direita , sem correr, sem saltar e respira devagarinho , para não me incomodar.

Sempre que saiam à rua, era sempre a mesma coisa, a Júlia encantava- se com o mundo e parava para ver as formigas a desfilar, girava a cabeça para  ouvir as conversas dos pássaros, o sussurrar do vento e quando a mãe não dava por ela, abraçava as árvores e sentia o calor do universo, era tão feliz! Mas, logo, logo ouvia as palavras da mãe a entrarem pelos seus ouvidos:

– Júliiiiiiiiiiiiiia, comporta-te   ajeita o laço, compõe o vestido e caminha direita sem correr, nem saltar e respira devagar para não me incomodar. Que coisa! Nem com as aulas de etiqueta e boas maneiras, que me custaram os olhos da cara, tu aprendeste! irra!

A mãe da Júlia fez um gesto afetado, levando as costas mão até à testa fuuuuuuu…

– A quem sai esta rapariga? Eu e o pai somo tão finos!  – Dizia a mãe desesperada às suas amigas também finíssimas, finérrimas, até enjoar.

Uma delas, que tinha uma filha finíssima, direitíssima, sempre com o laço no sítio, o vestido emproado e que quase não respirava para não a incomodar, disse:

– Lembras-te da tua tia Veva, aquela que era meio- maluca? andava sempre a rir, usava uns fatos espalhafatosos, sempre que via um grupo de crianças sentava-se no chão e contava umas histórias, onde dizia aos miúdos que eles eram feitos de pó de estrelas…ihhhhhh, que rídiculo!

A mãe de Júlia nunca tinha feito esta ligação, mas realmente, eram mesmo parecidas…até fisicamente! ambas eram ruivas, sardentas e tinham um sorriso escancarado, como se o mundo fizesse parte delas.

– Meu Deus, o que terei eu feito para merecer tal coisa? Tens razão, Bibi ! são mesmo parecidas …Eu bem que falava com o Rodolfo,  sobre o comportamento da Júlia, não tinha nada a ver connosco, com a nossa situação.

A Júlia que já estava habituada a ser o E.T. da família, ficou mesmo curiosa em saber quem era a Tia Veva. Afinal, havia alguém como ela, que bom!

Quando chegou a casa foi vasculhar os álbuns de fotografias, à procura da Tia Veva e depois de folhear umas quantas páginas, viu a Tia Veva, era ela de certeza! Ruiva, sorridente, com um fato espampanante e um sorriso de orelha a orelha, que contrastava com as outras pessoas que pareciam umas almas penadas e infelizes.

Agarrou no álbum e dirigiu-se á mãe:

– Esta é a tia Veva? Aquela que é maluca e feliz  como eu?

– Júliaaaaaaaa , quem te autorizou a mexer nisso, ajeita o laço, compõe o vestido , para de dar saltos e respira baixinho que me estas a incomodar! Irrrra!  E fica a saber que vais ter mais de mil aulas, de dia e noite, até aprenderes a seres fina, como nós. Cá em casa, não quero gente desgadelhada, amarrotada, estonteada e acima de tudo com esse ar de felicidade aparvalhada …ouviu Júlia?

A júlia, virou costas e foi até á cozinha lambuzar-se num bolo de chocolate que tinha cá um aspeto, e cá um cheirinho. Apesar de tudo, ela era feliz, ela sabia saborear o mundo, ela sabia escutar os animais, falar com o vento, sorrir como os raios do sol. Agora, que sabia que não era a única assim, feita de pós das estrelas.  Iria percorrer o caminho da vida com muito mais confiança.

Vanda

 

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