Conversas em Abril

Conversas em Abril

-O que é o 25 de Abril, Mãe?

-O 25 de Abril é o dia da liberdade…meu amor!

-Ah! Foi a partir desse dia que nós pudemos começar a brincar todo o dia e se soltaram os passarinhos das gaiolas?

-Mais ou menos… hummm, eu preciso de acabar este trabalho no computador, estou cheia de trbalho!

O Diogo insistiu e apesar do meu alheamento, a sua curiosidade era muito grande.

-Ah! Então foi quando os pais nos deixaram comprar todos os doces do mundo?

-Ai, ai, é um bocado complicado explicar-te… bem, antes do 25 de Abril, não havia liberdade, as pessoas não podiam dizer mal dos governantes, havia uns homens que nos espiavam e nos prendiam se nós disséssemos mal deles. Até podíamos ser presos. Por isso, nesse dia houve uma revolução feita pelos militares e pelo povo que libertou Portugal do Fascismo e da repressão.

-Chiiiii, então quer dizer que até ao 25 de Abril, tínhamos que falar muito baixinho e aos segredos para esses tais maus não nos apanharem?

– Sim, tínhamos de ter cuidado, pois naquela altura, até as paredes tinham ouvidos…

-Bolas, bolas, não me digas que eles punham orelhas nas paredes?

– Calma, filho, isto é uma maneira de dizer que as pessoas não podiam confiar em quase ninguém. Esses senhores maus andavam à paisana e apareciam onde tu menos esperavas.

-Mãe… Mãe, diz-me coisa tu conheceste algum desses senhores maus que ouviam tudo e que pelos vistos eram uns grandes queixinhas- Disse o Diogo com os olhos muitos abertos de curiosidade.

-Não, eu já nasci no tempo da Liberdade, mas o teu bisavô esteve na prisão.

-Verdade… o que ele disse? Gritou alto que não gostava dos Homens que mandavam? Deu-lhes um pontapé nas canelas, pois era isso mesmo que eles mereciam, grandes queixinhas!

-Não… como ele não concordava com o regime, encontrava-se secretamente com outras pessoas para tirar os mandões do governo. Eles queriam restituir a liberdade ao povo, eles queriam ler o que queriam, eles queriam poder dizer o que pensavam

-Uaaaaau… era um agente secreto, não sabia que tinha um bisavô tão importante, e tu nunca me contaste!

-Nunca tinha pensado dessa maneira, mas sim, pode-se dizer que ele era um agente secreto que lutava pela liberdade.

-Agora estou mesmo curioso… quem o prendeu? – pergunto o Diogo aos saltos de excitação e nervosismo ao mesmo tempo.

-A tua avó contou-me que numa noite, lá por volta das duas da manhã alguém bateu á porta de uma forma violenta…

– Ai… que medo deve ter sido assustador, saltaram todos da cama e foram -se esconder? Quem abriu a porta?

– Foi o teu bisavô, ele era muito corajoso, e não tinha medo de nada. Assim que ele abriu a porta, disseram: Somos a PIDE… e meu amor, quando as famílias ouviam estas vozes, era como se fosse um filme de terror, era o pânico completo. Estes homens reviravam a casa à procura de pistas para acusar, e depois muitos eram levados para serem interrogados e torturados.

-Mãe, mas isso aconteceu mesmo aqui em Portugal, não é um filme?

– Infelizmente, não foi um filme e muitos homens e mulheres, que não concordavam com o regime fascista sofreram terrivelmente nas prisões.

– Oh Mãe! E o bisavô?

– O bisavô foi para a prisão de Caxias, onde sofreu algumas torturas e humilhações. Quem era contra o Salazar era visto como um inimigo a bater.

O Diogo estava impressionado, nunca tinha imaginado que alguém podia ser preso e torturado por não concordar com as ideias dos governantes.

– Mãe, ele chegou a ver o 25 de Abril?

– Não, para grande tristeza da nossa família, ele morreu antes desse grande dia… e por isso nunca pode ver como era viver em Liberdade.

– Acho que fiquei um bocadinho triste pelo bisavô, mas graças a lutadores como ele, os meninos como eu podemos viver em Liberdade e não ter medo de dizer o que pensamos.

– Sabes mãe, ainda bem que há pessoas que lutaram por nós, que foram fortes e corajosos e nunca baixaram os braços.

– Mãe, fazes-me um favor, amanhã levas-me ao túmulo onde está o bisavô, quero lhe dizer obrigada e que tenho muito orgulho nele.

Vanda Furtado Marques

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