Cada um sabe onde lhe aperta o sapato

 

Há muito, muito poucos anos, havia um planeta em que as pessoas só olhavam para os seus pés, alias para os seus sapatos e para o seu umbigo.

-Bom dia Dona Cisália, que belos sapatos tem? que elegância! que glamour!devem ser ótimos para pisar a gentinha que anda por  aí . Pisar, com elegância. Cisália, fica sempre bem!

– Oh! D. Mercedes  e os seus são deslumbrantes, formosos, devem ser de marca, com certeza! E esse salto é maravilhoso para calcar esses seres insignificantes que populalm por aí!

Estavam numa animada conversa entre sapatos e umbigos, quando passa diante delas uns sapatos, com uma classe, eram mesmo estonteantes, como elas nunca tinham visto. As duas, ficam de olhos arregalados de inveja e seguiram os sapatos com o olhar.

Os sapatos estonteantes voltaram para trás e pararam diante delas:

– Que falta de classe, sabem que esses sapatos que calçam já passaram de moda? Se eu mandasse neste planeta punha toda esta gentinha sem classe, num sítio bem longe , onde ninguém os visse?

As duas, boquiabertas, deram corda aos sapatos e correram para bem longe dali, antes que os sapatos estonteantes cumprissem a ameaça.

Neste planeta, as pessoas só olhavam para os seus pés, quando estavam chateados e com vontade sonhar, conseguiam chegar até ao umbigo. Mais do que isso, era uma tarefa só para deuses.

Vamos ouvir mais uma conversa para conhecer estes seres estranhos:

– Sr Castanheira, como está hoje? Os seus sapatos estão em bom estado?

– Sr. Firmino, nem por isso, acho com a chuvada que apanharam estão a ficar constipados, agora tenho de os levar ao médico e ainda por cima com o mau estado do chão estão a ficar descolados e esburacados e se calhar tenho de lhes fazer um RX.

– Ah, os meus estão muito pior, ontem tropeçaram numa pedra e abriram -se ao meio, nem imagina, ambulância, hospital, foi um horror! Neste planeta, não há nada que nos anime, é só tristezas.

Bem, mas vamos voltar aos sapatos deslumbrantes, magníficos, cheios de pedigree.

Os sapatos calcorreavam de um lado para o outro, como se fossem os donos do mundo.  Só tinham bons modos para os da sua classe. Aos outros, quando tinha oportunidade dava-lhes umas pisadelas e uns chutos e até se estivesse mal disposto, mandava-os para lixeira.

Passado uns tempos, estes sapatos arrogantes e vaidosos, já tinham uns quanto seguidores que seguiam as suas pisadas, como o escravo segue o seu mestre.

Andavam a assustar tudo e todos, e só permitiam nas ruas, sapatos iguais aos deles, nada de sapatos abotinados, com atacadores, com pala, com franjas e com berloques!

Pois… até que chegou ao dia, em que a monotonia, encheu os seus dias e as pessoas cansaram -se de olhar para os sapatos todos iguais, todos deslumbrantes, todos elegantes, mas sem alma, sem coração, sem sonhos, sem esperança.

E como a história é feita de audazes, houve uns quantos, que ousaram olhar para lá do umbigo e olharam, olharam, até que o seu olhar se cruzou com as estrelas, com a lua, com o sol, com o vento e sapatos? ahhhh, sapatos?  Tinham passado tanto tempo a olhar para sapatos, quando o mundo estava ali á espreita para lhes dar a esperança emitida pelas estrelas, a magia da lua, o quentinho do sol e as ideias novas trazidas pelo vento.

Posso vos contar que a partir daquele dia , o planeta dos sapatos passou a denominar-se o planeta dos sonhos.

Vanda

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