A terra Tremeu …1755

O Marquês de Pombal grita- Conselheiros! Conselheiros! – ao mesmo tempo que tocava a sineta como se fosse o fim do mundo.

O seu fiel amigo, o Tobias, ladrava ao som da sineta e  o  dalildalão  misturava-se  com o latido do Tobias Auuuuuuuuuuuuuu.

Os Conselheiros pálidos e tremelicantes aproximam-se, o Marquês histérico e abananado, continua a gritar:

– Quem autorizou a abanar Lisboa desta maneira, sem me avisar, sem me pedir licença! Mas o que é isto?

Os Conselheiros que ainda abanavam, como dois troncos finos ao vento disseram em simultâneo:

– Cas-ti-go Di-vi-no , Cas-ti-go Di-vi-no !

O Marquês, ainda mais furioso com a resposta dos conselheiros que abanavam, como dois troncos finos ao vento, quase que rugiu:

– Qual castigo divino qual quê? Seus ignorantes! Isto foi um Tremor de Terra e dos grandes, seus imbecis! Cavalguem até à igreja de santa Maria de Belém, para saber como está a família real e vão com os olhos bem abertos para me contarem tudo o que virem.

À medida que se iam embrenhando na cidade, o cenário era desolador, o fogo espalhava-se pela cidade, à velocidade de um cavalo furioso, as  casas estavam quase todas   destruídas, algumas tinham apenas  uma ou duas as paredes em pé, parecia que se  tinham  evaporado. No chão viam-se enormes fendas, como se tivessem soltado os males do inferno. Era uma mistura de pó, fogo, gritos, choros e desolação

– Meu deus, como como é possível tamanha desgraça, vou voltar para trás, o Marquês tem de ser informado do estado da cidade de Lisboa – disse o primeiro conselheiro, com a voz a tremelicar de emoção.

Estava a começar a montar o cavalo, quando ouve gritos de aflição.

– Uma onda gigante levou tudo e todos que estavam à beira Tejo, o mar engoliu tudo por onde passava, é o fim do mundo, é o dilúvio, é a ira Divina. Deus nos acuda!

 Quando chegou ao pé do Marquês, estava com os olhos marejados de lágrimas, e rapidamente, mas com atropelos de nervosismo foi relatando o que vira e o que sentira. Gesticulava com emoção e o seu queixo tremia quando falava dos corpos espalhados por Lisboa.   Os olhos do Marquês iam -se abrindo de espanto, uma das suas mãos, ia até à face com ar de aflição.  Mas, na sua cabeça ia pensando “temos de agir, rápido, o povo de Lisboa precisa de nós.”

O Tobias que também estava aflito por ver o seu dono a fazer força para não chorar, ia-lhe lambendo as mãos para o mimar.

– Criados, criados, tragam-me a cabeleira cinzenta dos caracóis largos e a casaca castanha, avisem os cocheiros que temos de partir imediatamente, quero ver com os meus olhos, aquilo que me contam- disse o Marquês ainda atordoado com tudo o que ia sabendo.

O coche segue a toda a velocidade para a baixa de Lisboa, onde segundo as notícias, a catástrofe era maior. O Marques ia abrindo os olhos de espanto e estava incrédulo com tudo aquilo que estava a ver. Como era possível, uma tragédia desta dimensão? ele já tinha ouvido falar em terramotos, mas isto era demais, parecia mesmo castigo divino. Porque Deus estava tão zangado com o reino de Portugal?

– Ei, cocheiros, parem a carruagem, tenho de ir ver de perto, tenho de perceber a dimensão desta tragédia

   Logo, um grupo de soldados, rodeou-o, com ar de aflição, como que a perguntar: O que fazemos? Por onde começamos? Ajude-nos! Estamos perdidos!

Foi então, que o Marquês, com um ar emocionado, mas decido, disse aquela celebre frase, que a História eternizou:

“Enterrem os mortos e cuidem dos vivos”

Aos soldados atarantados, juntaram-se voluntários que puseram mãos à obra.

E no meio disto tudo, onde estava D. José e a família real?

Nem mais, nem menos, do que na Real Barraca da Ajuda, pois o Rei prometeu que nunca mais dormiria sob teto de alvenaria. Assim, o rei e a sua família passaram a viver, num palácio de madeira improvisado, com todos os requintes reais e a sua criadagem, como se estivessem num palácio de verdade. E por lá ficaram até, anos mais tarde um incendio destruir a famosa Real barraca.

Bem, mas era preciso reconstruir a baixa pombalina, com urgência, era preciso reerguer a cidade dos escombros. Marquês de Pombal contrata três grandes homens que vão trabalhar para isso: Carlos Mardel, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia.

Depois da planta escolhida a baixa de Lisboa renasce: As ruas tornam-se muito, muito, mais largas, casas que antes eram de madeira e encarrapitadas umas em cima das outras, surgem agora feitas de pedra, organizadas de forma geométrica e com uma fachada semelhante. Onde antes havia caminhos de terra batida e cheios de sujidade, surgem agora a construção de passeios empedrados, de água canalizada, e esgotos. Pela primeira vez, em Portugal é feita uma construção antissísmica, em forma de gaiola, as casas abanam, mas não caiem!

D. José e o Marquês de Pombal estava orgulhosos e olhavam satisfeitos para esta nova Lisboa. No coração de todo este projeto, nasce uma praça, a praça do Comércio, em homenagem aos comerciantes do reino.

No centro desta praça, ergueu-se uma estátua do rei, o grande soberano D. José I, em todo o seu esplendor e magnificência.

Bem, mas o Marquês de pombal, agora precisa de cuidar de si, a sua farta cabeleira estava descabelada e pouco emproada.

 – Criados, criados, preciso do mestre cabeleireiro para o palácio, quero que a minha cabeleira pareça uma enorme, grande juba.

Rápido, rápido!  Tobias, nem me vais reconhecer- ao mesmo tempo que o ia acariciando na sua cabecita- vou ficar um autêntico leão.

Talvez seja esta a razão do Marquês ter uma estatua, onde a seu lado está um enorme e um bravo Leão.

Vanda Furtado Marques  

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