A Princesa Espalhafatosa

  Era uma vez uma princesa que era muito vaidosa, aliás era muito mais que vaidosa, era presunçosa e presumida. Quando tinha uma visita oficial, estava horas e horas ao espelho, chateava a paciência às aias, às criadas, às camareiras e quem mais houvesse à sua volta. O seu ego era tão inchado que não lhe chegava uma cabeleira, colocava uma sobre a outra para ficar mais possante, não lhe chegava um leque, levava dois, pois não fosse ter calor dos dois lados. Por mais incrível que possa parecer, por vezes, levava metade de cada vestido, para mostrar que não era uma princesa pé rapado. Quando a princesa dava ao seu passeio, já um mensageiro, com uma enorme corneta e um megafone tinha avisado:

– Vem lá sua excelência a Princesa mais bela e admirada do reino, não percam esta hipótese de a ver como os vossos próprios olhos. A sua presença deixar-vos-á abençoados até ao ano que vem.

Passado uns minutos, já os súbditos se amontoavam para ver a princesa espalhafatosa . Esta caminhava altiva, mas pesada, desconfortável e até incomodada com tanta bagatela em cima.

Mas, havia sempre uns bajuladores que lhe batiam palmas e gritavam vivas, mesmo que ela tivesse ridícula e torta do peso que tinha em cima.

Certo dia, quando voltava de uma visita oficial, vinha extenuada, cansada, esgotada; só o Ego vinha maior que o mundo, foi então pousou os olhos numa jovem com um ar feliz, leve, linda como o sol, sem maquilhagem, sem luxos. Emanava tanto amor, tanta beleza, tanta doçura que deixou a princesa vaidosa circunspecta.

Como era possível, uma pessoa simples ser tão formosa, tão bela? Ela tinha de se esforçar tanto, mas tanto, tinha de estar tantas horas em frente ao espelho, aos gritos com as aias, as criadas e as camareiras para ser assim tão bela, mas tão pesada, e aquela jovem era tão leve e tão bela?

Muit ,muito chateada, mandou parar a comitiva e pediu que chamassem aquela jovem. Perante aquele aparato, a jovem ficou ruborizada, o que ainda a deixou mais bela.

Logo a princesa tratou de perguntar:

– Quero que venha até ao castelo, para eu falar consigo em privado, siga a comitiva – disse a princesa com um ar altivo.

A jovem seguiu a comitiva cabisbaixa, o que ela teria feito de mal? não se estava a lembrar de nada?

Chegadas ao palácio, a jovem foi levada pelas aias até ao sumptuoso, luxuoso, magnificente quarto da princesa vaidosa. A princesa já a esperava com o ar de quem dominava o mundo.

– Exigo que me diga como consegue ter esse ar tão maravilhoso, belo, leve e perfeito, sem ter um fato luxuoso, cabeleira, dois leques, maquilhagem, brincos, colares, comitiva, aias e bajuladores, diga-me e já? ou eu coloco-a nos calabouços para todo o sempre.

A jovem abriu muito os olhos de admiração, enrolou o cabelo atras das orelhas para ver se estava a ouvir bem e respondeu com uma grande serenidade.

– Exma. Princesa, eu só faço uma pequenina, mas grande coisa, encho o meu coração de Amor. Desta forma eu só exalo e respiro amor e tudo se torna belo e leve – disse a jovem com a maior das doçuras.

Ohhhh, estás a gozar comigo! Deixe-se de disparates e diga a verdade, qual amor qual carapuça, deixe-se de lamechices, como se o Amor fosse a solução para tudo? – Ria a princesa vaidosa, com umas gargalhas ruidosas e espalhafatosas, como ela!

– Pois então manda-me para os calabouços para o todo o sempre que eu não me importo- disse a jovem bela.

A Princesa ficou pensativa, parou de rir espalhafatosamente e percebeu que se calhar a jovem poderia ter razão. Mesmo que ela não o conseguisse sentir, algo lhe dizia que ali estava a solução  

Bem, devo-vos dizer que a jovem se tornou confidente e amiga da princesa vaidosa e que a pouco e pouco a foi ensinado a desfazer-se da parafernália que a enfeitava. Um dia, deu-se o clique e a princesa saiu com a comitiva com o Coração enorme e até exalava e respirava Amor.

Vanda Furtado Marques

ilustração de Michel Chevel

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